eras, e tinhas o Mundo

Quando eu disse que não te conhecia bem, menti. Eu conhecia-te. Conhecia-te tão bem que podia escrever um livro sobre ti. Eras um vício para mim. Sabias tanto de mim. Sem contar que me viste a chorar e a implorar atenção. Viste-me a reclamar da vida e a agradecer por estar viva. Viste-me ser criança, a correr como uma e falar como uma. Por incrível que pareça tu viste-me por completo, viste coisas que eu nunca pensei mostrar a ninguém. E, foi diferente contigo, não precisei de te mostrar nada para tu veres. Fosse como fosse, apanhaste-me desprevenida. Não estava preparada para ti. Para uma imprevista plenitude, incompreensivelmente bela. Nunca na vida tive tanta sorte como naquele momento. Era o meu nono cigarro e lembro-me de dizeres que isso te incomodava. Pensei que talvez devesse largar esse vício mas nunca fui de largar as coisas, de abrir mão de algo para me tornar melhor aos olhos de alguém. Mas, cansei-me de te ouvir queixar do cheiro e de ouvir o teu discurso em como me fazia mal á saúde, e o nono cigarro foi apagado, quase com raiva. Ele que não gostava do cheiro do meu cigarro e que tinha um perfume, de facto, melhor, que o do fumo que exalava tinha-me trazido cor ao Mundo. Ele que não fumava, não bebia e não usava drogas, completamente o oposto de mim. Era a pessoa mais chata que alguém podia conhecer. Tinha defeitos, inúmeros. Era meigo. Era duro com ele próprio, nada o punha abaixo. Excepto eu. Era a excepção da vida dele, o ponto fraco. Eu, ou era tudo, ou não era nada. E eu fui tudo. Ele era chato, tão chato como tarde de Domingo. Era cuidadoso, parecia um pai a cuidar da filha. Ele era ele mesmo. Conseguia despertar o meu pior e o meu melhor. Conseguia ser o meu tudo por mais que eu não desse permissão para isso. Carregava o mundo nas costas, ajudava sempre que podia. Abria mão do próprio sorriso para trazer alegria ao meu Mundo. Era jovem, mas tinha cabeça de adulto. Era do tipo que diz sempre que nada vai correr bem. Fazia tudo o que as pessoas lhe pediam, não por querer, mas com medo de as perder. Perdi a conta das vezes que o mandei parar de ser assim. Era dramático, e essa faceta piorava quando ele queria alguma coisa. Era honesto com (quase) tudo. Queria que tudo voltasse a ser o que um dia já foi. Fiz inúmeros planos contigo. Foste o melhor amigo que alguém pode pedir. Nunca vou ter palavras para te agradecer o facto de teres salvado a minha vida do mau caminho. E, quando digo que estou bem, na verdade não estou. Digo que superei mas basta olhar para o vazio do meu quarto que começo logo a chorar como uma criança. Digo tanta coisa, nego tanta coisa, mas, o inevitável, está no meu olhar. Quero que descanses em paz, meu João.