Mostrar mensagens com a etiqueta coisas da vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta coisas da vida. Mostrar todas as mensagens

para quem sente um arrepio 24 sob 7

Senta-te no escuro. Ouve o barulho do comboio que está longe, ouve as trevas, respira o doce veneno da dor. Ainda demora a amanhecer, a chuva ainda cai dolorosamente no chão... permanece inquieto no teu coração atrofiado. Enquanto a vergonha não vem, pensa que há alguma coisa que vale no interior. Enquanto a brisa não sopra, pensa que algum dia ela soprará. Engana-te, ilude-te, mas não percas a alma, meu querido indesejável. Senta-te e reflecte: e quando a casca rachar? O que é a vida senão uma grande teimosia humana? O que um sorriso bem motivado sem nada a dizer pode semear num coração vazio? Se ao menos tivesses provado, se ao menos tivesses deixado, se ao menos tivesses dito. Enquanto o sono não vem, pensa que será possível dormir de novo. Enquanto as peças são reordenadas, pensa que esse terramoto foi o último. Avalia-te, conjura-te à vazia extensão das trevas, meu amargo amigo. Na escuridão sabes até onde podes ir, pois não há caminho, não há nada, embora haja tudo o que precisas. Que quantidade de menosprezo o teu ego ainda sacia? Enquanto a cura não vem, pensa que a raiva a vai anestesiar. Enquanto o amanhã não chega, pensa que ele será diferente. Alimenta-te, porque tu tens estado faminto. Enquanto as horas não passam, enquanto os minutos se arrastam, enquanto o relógio me contraria, enquanto eu ainda respiro, enquanto o vento não pára, enquanto o medo desaparece, enquanto a chuva pára, enquanto outra esperança não vem, enquanto outra vida não começa. Pensa que há alguém que está encharcado da chuva verdadeira ao som do teu silêncio nu. Pensa que isso vai valer a pena algum dia, que a tentativa foi válida. Pensa que fizeste o possível e que o amanhã chegará rápido. Não te percas, não sufoques.

hoje é sexta-feira, traz mais cerveja

Comete erros, comete loucuras. Não penses demais porque o pensamento mudou assim que pensaste. O que acontece normalmente, que foi certo, nunca é lembrado. Ninguém se lembra do que foi normal. Lembramo-nos da tampa que levámos, dos enganos, das cenas patéticas. Por isso, comete erros, comete loucuras. Faz uma corrida com o silêncio. Não há anjos para salvar os ouvidos. Esquece o guarda-chuva, desafia a tua timidez, conversa mais do que te é permitido, come melancia e vai nadar nua no mar. Comete erros, comete loucuras. Não compres livros para aprender a educar filhos, para prender a diversão, para despistar os fantasmas. Não existe livro nenhum que ensine a cometer erros ou loucuras. Não sejas sério porque isso é duvidoso. Sê alegre porque a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. Grita para o vizinho que já não aguentas ser incomodado pela música alta dele. Usa roupas que te deixem alguma lembrança. Usa a memória das roupas mais do que as próprias roupas. Desiste da agenda, dos post-it, de qualquer informação que não seja um bilhete de comboio. Tenta dizer o que não te vem à cabeça. Cantarolar uma música sem letra. Sê imprudente porque, quando se anda numa linha recta, não há histórias para contar. Não esperes segundas intenções para chegar às primeiras. Almoça sem companhia para sentires saudades do que não tens na tua vida. Liga sem motivo para um amigo, lê um livro sem procurar coerência, ama sem pedir contrato, não sejas o que os outros esperam. Não limpes a casa ao fim-de-semana. Vai sair dançar, beber, fumar, fazer sexo com alguém que ames ou não ames, procurar prazer. Não sofras com o fim do fim-de-semana. Aumenta a respiração com um beijo. Diz o fodase que precisas de dizer. Não compliques o que é muito simples. Conta uma piada sem rir antes. Não chores para chantagear alguém. Comete erros, comete loucuras. Ninguém se vai lembrar do que foi normal. Prometo que as tuas lembranças não vão ser o que ficou por dizer porque, depois vais ver que é preferível a coragem da verdade do que a covardia da mentira.

podia ter sido diferente

Ligaste ao teu namorado nessa manhã, para lhe dizer que não te sentias bem e que ias ficar em casa. Disseste-lhe para não ficar com os teus trabalhos de casa e para se manter longe de ti, até melhorares porque não o querias contagiar. Ele desejou-te as melhoras e desligou. Só não sabia que nesse dia tu tinhas pensado no impensável: o suicídio. Decidiste cortar os pulsos, sangrar até á morte. Os teus pais estavam fora, não estava ninguém em casa, era o dia perfeito. Escreveste uma carta de despedida e deixaste-a no balcão da cozinha, na esperança de quando os teus pais chegassem e vissem soubessem que era tarde demais: que já terias partido. A caminhada que fazes até á casa-de-banho foi uma longa caminhada, a mais longa da tua vida. Pensas no teu namorado. Ele não fazia ideia do que estavas a preparar. Ele não sabia que nunca mais te veria. Pensas nos teus pais. Pensas no quanto os desapontaste. pensas que eles não têm orgulho em ti. Pensas no teu melhor amigo. No quanto o amaste, nas memórias que partilharam. Sorriste, mas depois lembraste-te do que estavas prestes a fazer e o sorriso desapareceu. Finalmente chegas á casa-de-banho. Respiras fundo e vais buscar aquilo que precisas. Antes de deslizares a lâmina pela pele suspiras desculpas, e depois cortas uma parte do teu corpo. O sangue começa a sair, tu deixas-te cair no chão. Os teus olhos começam a fechar-se conforme a dor vai aumentando. O sangue cai á tua volta, sujando a tua roupa preferida. Respiras fundo, antes de adormeceres. Enquanto isso, o teu namorado decide que seria uma boa ideia passar por tua casa para te mimar um bocadinho. Ele abre a porta de tua casa e chama por ti. Quando não recebe resposta, caminha um pouco mais no corredor. A casa-de-banho tem a porta aberta. O teu corpo está rodeado de sangue. O teu namorado fica em choque mas rapidamente recupera e corre para ti. Ele pega no teu corpo, abana-o e grita o teu nome. Ele está a chorar, agora. As lágrimas correm no seu rosto como o teu sangue correu o chão. Ele continua a gritar o teu nome, na esperança de obter uma resposta. Ele pára de te abanar, encosta a sua cabeça na tua barriga e fecha os olhos. Depois de alguns minutos ele acalma-se e pega no telemóvel. A ambulância chega, o teu namorado nunca sai do teu lado. Horas depois o médico anuncia que não conseguiram ajudar-te. Que morreste. O teu namorado fica em choque, sem aceitar o facto de que já não estás com ele. Os teus pais gritam e batem um no outro, repetindo vezes sem conta "a culpa é tua". O teu melhor amigo deixa-se cair nas cadeiras, a chorar. Toda a gente na sala de espera está a olhar para o teu pequeno grupo, a sentir pena deles. O teu funeral realiza-se três dias depois. Duzentas pessoas aparecem para honrar a tua memória. Nenhuma está a sorrir. Toda a gente sabe que talvez, se tivessem sido um bocadinho mais simpáticos contigo, ainda estarias viva. Toda a gente se culpa. O teu namorado não tornou a falar para ninguém e não come á vários dias. A tua mãe entrou em depressão. O teu pai está como o teu namorado, todos os dias olha para a televisão sem expressão no rosto. Há um memorial em tua honra na entrada da escola, com fotografias tuas. Mais ninguém é igual ao que era antes. O teu sorriso podia ter iluminado o dia de alguém. A tua gargalhada podia ter feito alguém sorrir. Mas não, tu decidiste partir. E a razão, essa só tu a conheces.
Continuo a andar por estas ruas escuras e frias, com estas comichões tão sem-sentido. Vou admirando estas putas insanas, ouvindo este silêncio tão triste, carregando na mala estes sentimentos tão complicados. Preciso de mais coisas boas e menos coisas más. Preciso de mais amor, mais beijos e abraços, de mais noite dormidas, de carícias e palavras doces. Estou a precisar de tempos selvagens, de uma cama desarrumada. Preciso de mãos na nuca, de encontros, saídas, chegadas, passeios. Preciso de ouvir ainda mais música, de ler ainda mais livros, de usar roupa mais confortável e colorida. Estou a precisar de nadar nua, caminhar da mesma forma, e principalmente namorar da forma que vim ao mundo, sem uma parte sequer coberta, preciso de mostrar pele, sentir a minha respiração acelerar. Preciso de paz, de saúde, preciso de infinitas coisas. Preciso de escrever, mas meu amigo, escrever prudentemente como tu fazes é lindo, mas não me dispara orgasmos. Satisfação é uma cerveja gelada e um texto cheio de sentimentos. Não acredito que seja preciso fazer um texto como se fosse maquilhagem e preocuparmo-nos com a estética. Gosto que seja natural e legítima, a forma como se escreve porque o leitor quer é fugir da realidade e o elegante é que um escritor se comprometa em transparecer os sentimentos que guarda em palavras lindas. Pensar para escrever e escrever coerentemente são coisas boas. No entanto, fazer do texto um quadro e pincelar mil cores para fingir aquilo que não está na sua essência como escritor, são coisas como escrever cinquenta palavras difíceis numa folha e essa pareça estar retirada de um dicionário. Cheia de palavras difíceis , mas que juntas não possuem significado nenhum. Vai muito para além de escrever um texto, porque escrita é como sexo: nunca é bom se for forçado.
Acontece que , ás vezes, as coisas simplesmente acabam. O tempo deixou de ser o mesmo, mas a rotina é igual. O que era tão importante antes, hoje já não faz tanto sentido. O que era uma necessidade passou apenas a ser uma vaga lembrança. A ausência de muitos começou a ser substituída pela saudade. A amizade não durou, o amor acabou. Os sentimentos foram desvanecendo. O tempo mudou e eu também mudei. Confesso que para pior. O tempo trouxe, mas também levou, muitas pessoas para a minha vida. Mas o tempo não levou aquelas marcas que insistem em me fazer lembrar dos momentos que eu sempre tentei esquecer. Ainda tenho lembranças da época em que os meus olhos brilhavam. Quando ainda era ingénua o bastante para acreditar em amizades que duram para sempre e amores que são eternos. Lembro-me perfeitamente do dia em que disse que nunca fumaria. Tinha inteligência suficiente para saber que aquilo acabaria com a minha vida porém foram palavras em vão porque é exactamente o que eu faço agora, apesar de já ter feito pior que apenas fumar. Que criança, precisava mesmo de um choque de realidade... só poderia não ter sido tão doloroso. Odiei-me muito, senti-me como um lixo naquela noite. Mas ela serviu para eu amadurecer e aprender que não vale a pena tentar acreditar que toda a gente é boa. Aprender que nada dura para sempre. Aprender que, ao contrário do que dizem, o tempo não cura merda nenhuma. O tempo é o que vem depois da dor. É o que resta depois de te afastares do mundo, acreditar no tempo. Mas ninguém devia acreditar. Não é o tempo que cura nada, somos nós. A força de vontade que existe em cada um de nós. O tempo deixou de ser o mesmo. E quando o tempo passa, nós passamos também. Passamos ao lado de certos problemas, certas dores, certas pessoas. E quem sabe, talvez o "passar ao lado" seja verdadeiramente o que cura.